Fiz as pazes com o tempo.
O passado e o presente são completamente sobrevalorizados,
e o futuro subestimado.
16 May 2008
13 May 2008
os últimos 45 minutos da minha vida que te ofereço.
A história da minha vida há-de ser um retrocesso de memórias, um feedback de emoções. Não há nada em que eu não seja tão exímia como na arte de não conseguir avançar.
Revivalista por natureza, fico presa a tudo o que foi óptimo, a tudo o que não disse, a tudo o que não farei.
A história da minha vida baseia-se no arrependimento, na máquina do tempo inexistente que eu desejaria possuir e concertar a minha vida vezes e vezes sem conta.
Esta carta foi escrita a um palhaço, e ela representa o meu revivalismo que morre hoje.
Por todas as coisas que não disse, todas as amigas que perdi, todas as más decisões que tomei, todas as oportunidades que não aproveitei. Adjectivá-las parece-me inútil e em vão, porque nunca saberei se é a adjectivação correcta, mas ainda assim o faço. Acabou-se. Esta carta é por todas as coisas que não disse, e não a enviarei de modo a provar-me que sou capaz de prosseguir ainda que com coisas por dizer. Não foram ditas na altura, agora não farão muito mais sentido.
A minha vingança a todas essas pessoas que não consigo evitar relembrar com uma nostalgia que é descabida, será o meu sucesso. O meu sucesso e felicidade. Elas olharão para mim muitos anos doravante e pensarão que eu não perdi nem um minuto a pensar no que lhes podia ter dito, e empreguei toda essa energia na minha própria adquirida felicidade.
Hei-de orgulhar-me sempre dos meus erros, por serem erros honestos.
"Foda-se. Eu estou-me a cagar para ti e quero que percebas isso, e isto não sou eu em negação, e sim, sei o que vais pensar, que se eu estivesse realmente a cagar-me para ti não seria isto que faria, escrever-te um mail. Mas antes de dizer-te: vai pensar para o caralho!, deixa-me dizer que me orgulho de uma forma extraordinária da minha personalidade, e só quero deixar isso claro de uma forma perene. E não, não andei a ver palavras num dicionário de sinónimos, eu sou mesmo culta.
Ainda bem que te avisei disto quando ainda nos falávamos. Isto vai levar-te algum tempo, e caguei, o teu tempo não é precioso e sinto-me no direito de o fazer. Sim, não sou nada sucinta, isto vai demorar um pouco porque eu sou tipo Almeida Garrett a divagar, ao menos levas a seca de ler isto mas levas também um documento físico para mostrares aos teus amigos. Uma prova, estás a ver? Vá, imprime lá a coisa e pavoneia-te nos ensaios da banda com o teu novo adquirido troféu.
Em primeiríssimo lugar: não, eu não tenho mesmo mais o que fazer senão ficar a pensar o que é que um bastardo cuja opinião nem sequer é credível ficou a pensar de mim, mas eu gosto que as pessoas tenham conhecimento de causa da minha pessoa, se quiseres odiar-me ao menos arranja um motivo (depois disto terás de sobra, don’t worry), não podes é odiar-me por te mandar uma sms a dizer que te amo, palhaço.
Pensa numa coisa (e eu sei que te vai custar porque contra injecções de auto estima é difícil de ser-se imparcial): uma pessoa que pretende perseguir-te avisa? Que tipo de stalker avisa que te vai perseguir? Perseguia-te e pronto, não? O elemento surpresa não é a base onde assenta toda a ideia da perseguição?
Como se isto não fosse razão suficiente, fica sabendo que não és especial, eu amo todo o mundo. Eu apaixono-me todos os dias, pergunta aos meus amigos, esses sim, que têm conhecimento de causa. Pergunta ao Miguel, já que vocês os dois parecem umas velhas cuscas campónias de bigode quando se juntam a descrever os últimos acontecimentos sobre mim. Cada vez que um homem me diz “olá” abre-se um mundo inteiro de possibilidades, (não necessariamente as minhas pernas), talvez não te interessa, mas pergunta-lhe também se eu alguma vez consegui ter uma relação monogâmica. E não porque gosto imenso de sexo, ou porque trair é excitante, sim porque sou uma cabra que se apaixona diariamente.
Quando me apaixono a sério, não tenho coragem de o dizer. É típico das pessoas que andam aí a distribuir amor falso, pergunta a qualquer bom psicólogo. (...)
Outra coisa: caguei para o que tu pensas também sobre o facto da bebedeira não ser desculpa. É. E não demorei imenso tempo a conjecturar esta teoria palhaço, não penses isso. Se me tivesses dado uma oportunidade para o dizer logo no momento, teria dito. A bebedeira é, efectivamente, desculpa. No sentido em que um bêbado não está apto para pensar e escrever uma sms que diga o seguinte: “epá ya, acho que curto de estar contigo, diverte-me estar contigo e estou a considerar a hipótese de estar a começar a curtir de ti mas estou muita bêbada por isso acho que estou a inflacionar este sentimento”. Não. O Sr. Ébrio inflaciona logo o sentimento, e resume a frase com um “amo-te”. Eu não poderia amar-te! Mas eu conheço-te de algum lado para te amar?! Tenta perceber que a bebedeira processa-se de maneira diferente em pessoas diferentes, não há factos comprovados porque não existem empresas disponíveis a ceder fundos a uma investigação inútil do género, mas pela minha experiência de vida e de bebedeiras (e tu, que tens 32 anos e te auto proclamas um brincalhão de primeira, devias saber isso melhor do que eu) e pelas regras simples de ciência orgânica dadas para aí no 4º ano não é difícil perceber a seguinte conclusão: corpos diferentes, reacções diferentes, cérebros predispostos a amar, sms de amor. Ok? A bebedeira é um processo químico, se a medicina ainda não descobriu o medicamento que tenha o mesmo efeito em 100% da população, o álcool vai ter?
Por fim (e juro que estou mesmo a terminar) se eu realmente te amasse deixa-me dizer-te que és um cabrão. Epá, e não te orgulhes disso, porque a mim já me disseram que me amam assim do nada e eu nem por isso lhes disse “backoff!” porque pensei: bem, se esta pessoa me ama e eu não posso amá-la da mesma maneira, pelo menos vou deixar isso claro e poder honrar o sentimento dela da forma que puder. Por isso, mesmo que não percebas nada do que acima explico, continuas a ser má pessoa Alexandre, pelo menos isso deveria pesar-te na consciência.
Respeito muito pessoas com coragem, e dizer amo-te não é fácil.
E não vou dar uma de “ah e tal usaste-me”, isso seria estúpido. Eu não sou assim e tu nunca me prometeste nada sem ser as poucas sms que mandaste (também bêbado, lá está, não percebo) a dizer que gostavas de mim quando ainda nem tínhamos estado sentados a falar uma única vez, ao fim de dois dias de conversa virtual. (Lindo, também gostavas de mim nessa altura no sentido lato da palavra ou era a bebedeira a falar? Lá está, daí vem a expressão “bebedeira a falar”, não fui eu que a inventei bebé. Ou agora também vais questionar anos de sabedoria popular? Ai, ai, - suspiro de paciência – coerência e boa memória nunca foram o teu forte, está mais que visto). Estás no teu direito, mas ao menos diz-me que te afastaste de mim porque cheiro mal, não faço a depilação no Inverno ou salivo imenso da boca quando falo e isso não é nada giro de se ver (e quero mesmo que faças uma representação mental disto, para poderes excluir a hipótese de que este mail é para te “reconquistar”). Ou diz-me antes que pretendias comer-me de trás para a frente mas depois percebeste que eu não era a miúda fácil a que estás habituado e não sabias como descalçar a bota. Acontece-me regularmente, não tenho culpa de ser gira e, simultaneamente, estar cheia de personalidade quando existe um estereótipo qualquer sobre as mulheres boas.
Não precisas ser meu amigo, amigos tenho eu de sobra, mas exijo o teu respeito, e aquilo não foi maneira de tratar uma pessoa. Eu quero poder ir aos concertos de Macacos sem ter-te a pensares que fui para te ver porque te amo, o mundo não gira à tua volta ya? Não és nenhum sol. E quero poder encontrar-te na rua sem que seja constrangedor, e espero esclarecer isto mesmo que não volte a falar contigo porque ser a comédia de uma banda de categoria B não faz o meu género. Pendura lá o teu troféu, eu sou um bom troféu, sei que sim, deves estar orgulhoso disso. Só uma pergunta: é esse o teu kick? O meu é coleccionar experiências com idiotas, ora aí está, também és o meu troféu.
Do género, agora nunca mais vou poder ir ao teatro no Tivoli comprar bilhetes? E nunca mais vou poder ir jantar a casa da minha amiga Marta que é tua vizinha? Ridículo.
Pá, sou mesmo transparente, cristal clear, por isso tinha de deixar isto claro. Caguei se não voltar a falar contigo, só não gosto de psicologia barata, e de pessoas que ficam com uma errada impressão de mim porque não souberam analisar-me. Aliás, eu pensei que tu, como tinhas taaaaanto sentido de humor (!) fosses perceber a porcaria das mensagens e fosses rir disso, assim como eu ri, no dia seguinte. Se há coisa que eu não sou é cobarde, e não me custa nada admitir ao mundo que te mandei uma sms a dizer “amo-te” mas as coisas não são assim tão lineares, não deixa de ser verdade se não for visto em perspectiva, é apenas rigoroso, mas é mais verdade se for contextualizado. E juro-te, se eu soubesse que não eras um cavalheiro e que andarias a pavonear-te com a merda de um concerto que foste ver comigo e mais uns quantos sms fora de contexto, nunca na minha vida me teria metido contigo no myspace. Já conheci homens das obras com mais classe que tu.
I.Y.F.F.M.F!: E sei que andaste a tentar ver o meu myspace. Isso foi lindo para o meu ego e para a construção (ou apenas reforço) da ideia que eu tenho da tua personalidade. Para quê veres o meu myspace? Quer dizer, eu tenho a obrigação de esquecer-te e a ti isso não se aplica? Bateu-te a saudade foi bebé? Queres ser infantil? Vamos ser infantis! Pelo menos eu tenho mais razões do que tu, tenho 21 anos porra.
P.S. Poupei-te ao trabalho de fazeres copy-paste, e mando em anexo o mesmíssimo texto num documento word para te facilitar o trabalho de impressão e levares aos ensaios, espero que a tua impressora tenha tinta, mas não vale omitires partes com uns simples cut, ya? E ao menos conta a história como deve de ser, deixa-os ler o documento com atenção, tenta ser minimamente rigoroso e não contes as partes do mail que apenas te interessam, isso não seria justo.
E faz-se só um favor: não te dês ao trabalho de me fazeres um “RE: hate mail” porque eu bloqueei as tuas possíveis mensagens. Não vais receber um “delivery status: failed”, mas também eu não vou receber nada por isso não vale a pena incomodares-te, para além de que o objectivo disto NÃO É obter uma resposta. Isto não é um monólogo, é apenas uma conversa de circuito fechado.
E não me venhas com balelas tipo amor e ódio estão bastante correlacionados, a sua linha é ténue, indiferença e desprezo é suficiente, blá, blá, blá, porque isso para mim é bullshit. Equivale quase aos homens de pénis pequeno que andam por aí a dizer que o tamanho nunca contou, percebes? Não posso evitar que te tenha conhecido, é mais um dos meus poucos defeitos mas olha – encolher de ombros –, digamos que o destino nem sempre me foi amigo, queres que faça o quê?
E quero também desconstruir desde JÁ a ideia de que este mail demorou duas semanas a cozinhar, que eu pensei bem no que ia dizer, que escolhi cuidadosamente os vocábulos e argumentos, blá, blá, blá. Mais bullshit. Nem por sombras. Demorou três quartos de hora inspirados num episódio de Dr. House, bebé. Pode custar-te a acreditar por estar escrito de forma tão transcendente e que te ultrapassa, mas eu tenho um futuro promissor na escrita, sou criativa e boa dactilografa, e óptima a entrar em transe e cuspir o que penso em curtos espaços de tempo. A minha escrita, tal como eu, só é perfeita por ser espontânea. Dou-te também uma possibilidade de comprovares este fenómeno que aqui descrevo (sou óptima a coleccionar palhaços mas também em não deixar pontas soltas): se fosses exímio na interpretação de prosa poética satírica ironico-inteligente, conseguirias, a partir do meu texto, interpretar através da velocidade implicitamente expressa no ritmo conferido pelos vocábulos e pontuação, que eu não demorei muito tempo a conceber isto. Como não és, eu que o sou e que tive 19.4 a Português A no Exame Nacional (by the way, a melhor nota do conselho de Setúbal), digo: no texto apresentado de prosa poética satírica ironico-inteligente, através da velocidade implicitamente expressa no ritmo conferido pelos vocábulos e pontuação, é fácil concluir-se que o seu autor não demorou muito tempo (cerca de três quartos de hora) a concebê-lo. A análise feita por mim é tendenciosa, eu sei, mas leva isto a alguém inteligente – existem mais especialistas na área – caso queiras aumentar o teu ego, que ele derruba logo por terra o teu mundinho narcisista assim em três tempos.
CASO NÃO QUEIRAS DAR-TE AO TRABALHO DE LER O TEXTO TODO, LERES ESTE PARÁGRAFO BASTA:
A título de conclusão, deixa-me pedir-te que, se me vires algum dia na rua, (porque Lisboa é pequena e tu um cagalhão no passeio) por favor finge que nunca me conheceste. É mais do que justo. Não te quero apagar da minha memória porque é-me fisicamente impossível e porque ser utópica e sonhar que algum dia tal seja possível pelas mãos da tecnologia e/ou medicina não faz o meu tipo, mas ter uma vaga lembrança bastará. Portanto, não me relembres, ya? Nada de “Eu sou o Alex, lembras-te? Aquele que hipoteticamente amaste...”, ok? Não quero ter de fingir que me lembro de ti, só farás má figura.
São 45 minutos da minha vida que te ofereço, ok, mas garanto-te que já perdi mais tempo a defecar, tenho um intestino tímido.
Legenda:
I.Y.F.F.M.F! stands for: in your fucking face mother fucker!"
Revivalista por natureza, fico presa a tudo o que foi óptimo, a tudo o que não disse, a tudo o que não farei.
A história da minha vida baseia-se no arrependimento, na máquina do tempo inexistente que eu desejaria possuir e concertar a minha vida vezes e vezes sem conta.
Esta carta foi escrita a um palhaço, e ela representa o meu revivalismo que morre hoje.
Por todas as coisas que não disse, todas as amigas que perdi, todas as más decisões que tomei, todas as oportunidades que não aproveitei. Adjectivá-las parece-me inútil e em vão, porque nunca saberei se é a adjectivação correcta, mas ainda assim o faço. Acabou-se. Esta carta é por todas as coisas que não disse, e não a enviarei de modo a provar-me que sou capaz de prosseguir ainda que com coisas por dizer. Não foram ditas na altura, agora não farão muito mais sentido.
A minha vingança a todas essas pessoas que não consigo evitar relembrar com uma nostalgia que é descabida, será o meu sucesso. O meu sucesso e felicidade. Elas olharão para mim muitos anos doravante e pensarão que eu não perdi nem um minuto a pensar no que lhes podia ter dito, e empreguei toda essa energia na minha própria adquirida felicidade.
Hei-de orgulhar-me sempre dos meus erros, por serem erros honestos.
"Foda-se. Eu estou-me a cagar para ti e quero que percebas isso, e isto não sou eu em negação, e sim, sei o que vais pensar, que se eu estivesse realmente a cagar-me para ti não seria isto que faria, escrever-te um mail. Mas antes de dizer-te: vai pensar para o caralho!, deixa-me dizer que me orgulho de uma forma extraordinária da minha personalidade, e só quero deixar isso claro de uma forma perene. E não, não andei a ver palavras num dicionário de sinónimos, eu sou mesmo culta.
Ainda bem que te avisei disto quando ainda nos falávamos. Isto vai levar-te algum tempo, e caguei, o teu tempo não é precioso e sinto-me no direito de o fazer. Sim, não sou nada sucinta, isto vai demorar um pouco porque eu sou tipo Almeida Garrett a divagar, ao menos levas a seca de ler isto mas levas também um documento físico para mostrares aos teus amigos. Uma prova, estás a ver? Vá, imprime lá a coisa e pavoneia-te nos ensaios da banda com o teu novo adquirido troféu.
Em primeiríssimo lugar: não, eu não tenho mesmo mais o que fazer senão ficar a pensar o que é que um bastardo cuja opinião nem sequer é credível ficou a pensar de mim, mas eu gosto que as pessoas tenham conhecimento de causa da minha pessoa, se quiseres odiar-me ao menos arranja um motivo (depois disto terás de sobra, don’t worry), não podes é odiar-me por te mandar uma sms a dizer que te amo, palhaço.
Pensa numa coisa (e eu sei que te vai custar porque contra injecções de auto estima é difícil de ser-se imparcial): uma pessoa que pretende perseguir-te avisa? Que tipo de stalker avisa que te vai perseguir? Perseguia-te e pronto, não? O elemento surpresa não é a base onde assenta toda a ideia da perseguição?
Como se isto não fosse razão suficiente, fica sabendo que não és especial, eu amo todo o mundo. Eu apaixono-me todos os dias, pergunta aos meus amigos, esses sim, que têm conhecimento de causa. Pergunta ao Miguel, já que vocês os dois parecem umas velhas cuscas campónias de bigode quando se juntam a descrever os últimos acontecimentos sobre mim. Cada vez que um homem me diz “olá” abre-se um mundo inteiro de possibilidades, (não necessariamente as minhas pernas), talvez não te interessa, mas pergunta-lhe também se eu alguma vez consegui ter uma relação monogâmica. E não porque gosto imenso de sexo, ou porque trair é excitante, sim porque sou uma cabra que se apaixona diariamente.
Quando me apaixono a sério, não tenho coragem de o dizer. É típico das pessoas que andam aí a distribuir amor falso, pergunta a qualquer bom psicólogo. (...)
Outra coisa: caguei para o que tu pensas também sobre o facto da bebedeira não ser desculpa. É. E não demorei imenso tempo a conjecturar esta teoria palhaço, não penses isso. Se me tivesses dado uma oportunidade para o dizer logo no momento, teria dito. A bebedeira é, efectivamente, desculpa. No sentido em que um bêbado não está apto para pensar e escrever uma sms que diga o seguinte: “epá ya, acho que curto de estar contigo, diverte-me estar contigo e estou a considerar a hipótese de estar a começar a curtir de ti mas estou muita bêbada por isso acho que estou a inflacionar este sentimento”. Não. O Sr. Ébrio inflaciona logo o sentimento, e resume a frase com um “amo-te”. Eu não poderia amar-te! Mas eu conheço-te de algum lado para te amar?! Tenta perceber que a bebedeira processa-se de maneira diferente em pessoas diferentes, não há factos comprovados porque não existem empresas disponíveis a ceder fundos a uma investigação inútil do género, mas pela minha experiência de vida e de bebedeiras (e tu, que tens 32 anos e te auto proclamas um brincalhão de primeira, devias saber isso melhor do que eu) e pelas regras simples de ciência orgânica dadas para aí no 4º ano não é difícil perceber a seguinte conclusão: corpos diferentes, reacções diferentes, cérebros predispostos a amar, sms de amor. Ok? A bebedeira é um processo químico, se a medicina ainda não descobriu o medicamento que tenha o mesmo efeito em 100% da população, o álcool vai ter?
Por fim (e juro que estou mesmo a terminar) se eu realmente te amasse deixa-me dizer-te que és um cabrão. Epá, e não te orgulhes disso, porque a mim já me disseram que me amam assim do nada e eu nem por isso lhes disse “backoff!” porque pensei: bem, se esta pessoa me ama e eu não posso amá-la da mesma maneira, pelo menos vou deixar isso claro e poder honrar o sentimento dela da forma que puder. Por isso, mesmo que não percebas nada do que acima explico, continuas a ser má pessoa Alexandre, pelo menos isso deveria pesar-te na consciência.
Respeito muito pessoas com coragem, e dizer amo-te não é fácil.
E não vou dar uma de “ah e tal usaste-me”, isso seria estúpido. Eu não sou assim e tu nunca me prometeste nada sem ser as poucas sms que mandaste (também bêbado, lá está, não percebo) a dizer que gostavas de mim quando ainda nem tínhamos estado sentados a falar uma única vez, ao fim de dois dias de conversa virtual. (Lindo, também gostavas de mim nessa altura no sentido lato da palavra ou era a bebedeira a falar? Lá está, daí vem a expressão “bebedeira a falar”, não fui eu que a inventei bebé. Ou agora também vais questionar anos de sabedoria popular? Ai, ai, - suspiro de paciência – coerência e boa memória nunca foram o teu forte, está mais que visto). Estás no teu direito, mas ao menos diz-me que te afastaste de mim porque cheiro mal, não faço a depilação no Inverno ou salivo imenso da boca quando falo e isso não é nada giro de se ver (e quero mesmo que faças uma representação mental disto, para poderes excluir a hipótese de que este mail é para te “reconquistar”). Ou diz-me antes que pretendias comer-me de trás para a frente mas depois percebeste que eu não era a miúda fácil a que estás habituado e não sabias como descalçar a bota. Acontece-me regularmente, não tenho culpa de ser gira e, simultaneamente, estar cheia de personalidade quando existe um estereótipo qualquer sobre as mulheres boas.
Não precisas ser meu amigo, amigos tenho eu de sobra, mas exijo o teu respeito, e aquilo não foi maneira de tratar uma pessoa. Eu quero poder ir aos concertos de Macacos sem ter-te a pensares que fui para te ver porque te amo, o mundo não gira à tua volta ya? Não és nenhum sol. E quero poder encontrar-te na rua sem que seja constrangedor, e espero esclarecer isto mesmo que não volte a falar contigo porque ser a comédia de uma banda de categoria B não faz o meu género. Pendura lá o teu troféu, eu sou um bom troféu, sei que sim, deves estar orgulhoso disso. Só uma pergunta: é esse o teu kick? O meu é coleccionar experiências com idiotas, ora aí está, também és o meu troféu.
Do género, agora nunca mais vou poder ir ao teatro no Tivoli comprar bilhetes? E nunca mais vou poder ir jantar a casa da minha amiga Marta que é tua vizinha? Ridículo.
Pá, sou mesmo transparente, cristal clear, por isso tinha de deixar isto claro. Caguei se não voltar a falar contigo, só não gosto de psicologia barata, e de pessoas que ficam com uma errada impressão de mim porque não souberam analisar-me. Aliás, eu pensei que tu, como tinhas taaaaanto sentido de humor (!) fosses perceber a porcaria das mensagens e fosses rir disso, assim como eu ri, no dia seguinte. Se há coisa que eu não sou é cobarde, e não me custa nada admitir ao mundo que te mandei uma sms a dizer “amo-te” mas as coisas não são assim tão lineares, não deixa de ser verdade se não for visto em perspectiva, é apenas rigoroso, mas é mais verdade se for contextualizado. E juro-te, se eu soubesse que não eras um cavalheiro e que andarias a pavonear-te com a merda de um concerto que foste ver comigo e mais uns quantos sms fora de contexto, nunca na minha vida me teria metido contigo no myspace. Já conheci homens das obras com mais classe que tu.
I.Y.F.F.M.F!: E sei que andaste a tentar ver o meu myspace. Isso foi lindo para o meu ego e para a construção (ou apenas reforço) da ideia que eu tenho da tua personalidade. Para quê veres o meu myspace? Quer dizer, eu tenho a obrigação de esquecer-te e a ti isso não se aplica? Bateu-te a saudade foi bebé? Queres ser infantil? Vamos ser infantis! Pelo menos eu tenho mais razões do que tu, tenho 21 anos porra.
P.S. Poupei-te ao trabalho de fazeres copy-paste, e mando em anexo o mesmíssimo texto num documento word para te facilitar o trabalho de impressão e levares aos ensaios, espero que a tua impressora tenha tinta, mas não vale omitires partes com uns simples cut, ya? E ao menos conta a história como deve de ser, deixa-os ler o documento com atenção, tenta ser minimamente rigoroso e não contes as partes do mail que apenas te interessam, isso não seria justo.
E faz-se só um favor: não te dês ao trabalho de me fazeres um “RE: hate mail” porque eu bloqueei as tuas possíveis mensagens. Não vais receber um “delivery status: failed”, mas também eu não vou receber nada por isso não vale a pena incomodares-te, para além de que o objectivo disto NÃO É obter uma resposta. Isto não é um monólogo, é apenas uma conversa de circuito fechado.
E não me venhas com balelas tipo amor e ódio estão bastante correlacionados, a sua linha é ténue, indiferença e desprezo é suficiente, blá, blá, blá, porque isso para mim é bullshit. Equivale quase aos homens de pénis pequeno que andam por aí a dizer que o tamanho nunca contou, percebes? Não posso evitar que te tenha conhecido, é mais um dos meus poucos defeitos mas olha – encolher de ombros –, digamos que o destino nem sempre me foi amigo, queres que faça o quê?
E quero também desconstruir desde JÁ a ideia de que este mail demorou duas semanas a cozinhar, que eu pensei bem no que ia dizer, que escolhi cuidadosamente os vocábulos e argumentos, blá, blá, blá. Mais bullshit. Nem por sombras. Demorou três quartos de hora inspirados num episódio de Dr. House, bebé. Pode custar-te a acreditar por estar escrito de forma tão transcendente e que te ultrapassa, mas eu tenho um futuro promissor na escrita, sou criativa e boa dactilografa, e óptima a entrar em transe e cuspir o que penso em curtos espaços de tempo. A minha escrita, tal como eu, só é perfeita por ser espontânea. Dou-te também uma possibilidade de comprovares este fenómeno que aqui descrevo (sou óptima a coleccionar palhaços mas também em não deixar pontas soltas): se fosses exímio na interpretação de prosa poética satírica ironico-inteligente, conseguirias, a partir do meu texto, interpretar através da velocidade implicitamente expressa no ritmo conferido pelos vocábulos e pontuação, que eu não demorei muito tempo a conceber isto. Como não és, eu que o sou e que tive 19.4 a Português A no Exame Nacional (by the way, a melhor nota do conselho de Setúbal), digo: no texto apresentado de prosa poética satírica ironico-inteligente, através da velocidade implicitamente expressa no ritmo conferido pelos vocábulos e pontuação, é fácil concluir-se que o seu autor não demorou muito tempo (cerca de três quartos de hora) a concebê-lo. A análise feita por mim é tendenciosa, eu sei, mas leva isto a alguém inteligente – existem mais especialistas na área – caso queiras aumentar o teu ego, que ele derruba logo por terra o teu mundinho narcisista assim em três tempos.
CASO NÃO QUEIRAS DAR-TE AO TRABALHO DE LER O TEXTO TODO, LERES ESTE PARÁGRAFO BASTA:
A título de conclusão, deixa-me pedir-te que, se me vires algum dia na rua, (porque Lisboa é pequena e tu um cagalhão no passeio) por favor finge que nunca me conheceste. É mais do que justo. Não te quero apagar da minha memória porque é-me fisicamente impossível e porque ser utópica e sonhar que algum dia tal seja possível pelas mãos da tecnologia e/ou medicina não faz o meu tipo, mas ter uma vaga lembrança bastará. Portanto, não me relembres, ya? Nada de “Eu sou o Alex, lembras-te? Aquele que hipoteticamente amaste...”, ok? Não quero ter de fingir que me lembro de ti, só farás má figura.
São 45 minutos da minha vida que te ofereço, ok, mas garanto-te que já perdi mais tempo a defecar, tenho um intestino tímido.
Legenda:
I.Y.F.F.M.F! stands for: in your fucking face mother fucker!"
04 May 2008
a interrogação silenciosa é a pergunta mais latejante de todas.
- Como é que viemos aqui parar? - Pergunta ela, aos tropeções tentando arranjar uma posição confortável naquela cama, tentando segurar a cabeça com toda a força do seu pescoço, tentando concentrar-se a minimizar o efeito do vinho, - hã? - Pergunta novamente, agora ainda mais infantil, esperando uma resposta dele. Ela olha à sua volta.
- Shh... - sussurra ele, pousando-lhe um dedo descoordenado sobre os lábios. Ele também está claramente bêbado, e pergunta-se se isto será um erro. Ela sabe, efectivamente, que aquilo é um erro. Mas a personagem feminina desta fantasia sempre se sentiu atraída por coisas erradas; aliás, tudo o que ela sabe fazer é errar, é essa a história da sua vida. É uma história baseada na sucessão de erros que vieram a demonstrar-se interessantes e que a levaram até onde se encontra hoje: um quarto de hotel luxuoso, imundo às custas duma vida boémia, pago pela empresa que os levou ali como colegas de trabalho. É isso que lhe dá prazer, de entre todas as luxúrias quotidianas a que sucumbe. Viver uma vida de erros dos quais nunca se arrependerá, porque estará demasiado bêbada para se aperceber deles. Viver uma vida de belos infortúnios, que sabe que lhe acontecem porque os homens são demasiado fracos para lhe recusarem algo. Ela afinal não é tão estúpida quanto isso. Apaixonada pelo proibido, pela vida, pelo pecado, sim. Estúpida, não. E a maior prova disso é que ela construiu a vida dos seus sonhos fazendo-se passar por estúpida.
E aquela relação, aquele rufar de tambores que agora se anuncia perante ambos, durou um ano a alcançar. É persistente, nem todo o tempo do mundo a demove dos seus objectivos. Foi paciente o suficiente para esperar por aquele momento. E agora finge que não está a dar por ele, que ele passa por si despercebido, que não foi ela que o perseguiu, que é mais um infortúnio, mais um daqueles que lhe acontecem.
- Que cliché, fazeres isso do shh, estás a tentar ser sensual? - Finaliza ela, já sabendo que aquela frase o deixará intrigado. É assim que ela trabalha, até ao momento do sexo, às vezes mesmo após, ela nunca se entrega, deixa-os sempre com o gostinho amargo da dúvida de que eles poderão, afinal, não a ter. Pelo menos naquela noite.
E assim, ele tropeça na sua teia. Sempre adorou a brutalidade sincera do seu discurso, "existem tão poucas mulheres assim, tão pouco confiantes ao ponto de dizerem a verdade", pensa. Isso excita-o ainda que de uma forma não física, que, porém, se transfere até o seu físico. Os homens inteligentes são assim, funcionam com o cérebro, é o membro deles que tem de ser estimulado sexualmente. E ela sabe-o, sempre o operou porque percebeu desde nova que o corpo não era o seu melhor atributo, era a sua inteligência e como a poderia usar: fazer-se passar por confiante, escolher ser misteriosa, fingir-se de ingénua quando é calculista, fingir-se dominada quando domina, e praticar a sua sensualidade com base na sugestão, sem nunca, nunca perder a classe. A beleza física, aliás, é efémera, e ela é inteligente que baste para perceber que não poderá fazer uso exclusivo dela para sempre.
Ele explica:
- Tu és a namorada oficial do não-sei-das-quantas, a paixão de dois dos meus colegas de banda e a amante do meu ídolo. Como é que podes ter espaço para mais um homem na tua vida? - Ambos riem de forma perversa, e as suas testas e narizes encontram-se; sentem agora o hálito latejante um do outro.
- Cala-te agora tu. Eu não sou tua, nunca serei. Portanto não terei de arranjar "espaço" para ti na minha vida. E se queres saber, eu só sou uma promiscua sabes porquê? - Diz ela, entre mais gargalhadas, arrastando as palavras, contorcendo-se, e com pausas desnecessárias. - Sabes porquê? Sabes? Não sabes... Porque eu apaixono-me. Sim, apaixono-me. Será normal? Gostar de mais que uma pessoa ao mesmo tempo? Eu vou para o inferno...
Ele beija-a, surpreendendo-a. Ela adora ser surpreendida. Ele sabe que aquele monólogo não irá a lado nenhum, sinceramente nem quer ouvi-lo. Deixou-se invadir pelo selvagem sentimento que o assola, apesar de todas as consequências que amanhã terá de enfrentar. Ele deseja-a demasiado para resistir ao seu perfume, aos seus lábios, à sua sensualidade tão espontânea.
Ela empurra-o:
- Contempla-me.
Ele não sabe bem o que fazer.
- Contempla-me! - Grita ela, num sussurro grave e de tom manipulador, porque aquela relação é segredo, é mentira.
Ainda sem saber o que fazer, ele sussurra o seu nome com uma clara terminação reticente, o típico sussurro de desejo.
- Contempla-me, diz que me queres -, insiste.
Ele não responde, ele nunca foi submisso. Custa-lhe porque ele quer aquele momento mais do que tudo, desde que se apercebeu que ela não era a burra que ele julgava ser. Mas este homem está habituado a dominar as mulheres, não o contrário. Ele quase que não acredita que tem 32 anos e que está quase, quase a ceder aos desejos de uma miúda de 21. Ele é o tipo de homem que tem groupies a toda a hora disponíveis, só porque toca numa banda. Mas esta não. Esta escolheu-o a ele, não o contrário, e ela quer deixar isso bem claro como a vingança da última vez que ele a julgou mais uma dessas fãs.
- Adoro ser adorada... - Sussurra ela, insistindo, adivinhando-lhe os pensamentos.
Ela agora está quase a oferecer-se a ele numa bandeja prateada, a mesma mulher que manipula o seu ídolo. Ela está de soutien preto, de um negro que lhe assenta perfeitamente no tom de pele, e de jeans justos. Desaperta o primeiro botão das calças, mostrando-se tímida, e fazendo um olhar que lhe diz que ela desapertará mais se ele a contemplar. Ele toma um momento e olha para ela com olhos de ver, agora sim, ele começa a ceder. Ela continua confiante e tímida, vira-se, brinca com a alça do soutien, puxa o cabelo para um lado e pede: "beija-me aqui", desviando o olhar para o seu pescoço.
Esta é uma mulher que não tem prazer no sexo, pelo menos não no coito. E ela já fez sexo vezes suficientes e com os mais diversos homens para saber que nunca terá prazer no sexo. Mas não é frustrada por isso. Ela arranjou maneira de contornar o problema. Preenche as lacunas do prazer físico com prazer emocional. E o autor deste texto não se refere a amor ao mencionar prazer emocional. Tudo o que ela tem é a emoção, já que fisicamente é frígida, então desafia-se a controlar os homens mais controladores, a infantilizar os homens mais adultos, a tornar fracos e submissos os mais confiantes. A superá-los; é isso que lhe dá prazer. Ela quase que se vinga do prazer que nunca terá, humilhando-os psicologicamente. Quando começam, ela transmite sempre a mensagem subliminar que terá de ser à maneira dela, ou não será.
Enquanto ele a beija, louco de respiração ofegante, enquanto ele a bajula fazendo do seu corpo um santuário de prazer, exactamente como ela impôs, ela luta por afastar-se dos seus pensamentos. "Meu Deus, como amo este homem... Como sou louca por ele... Vai partir-me o coração sair deste quarto e dizer-lhe que não o quero...", e concentra-se, tentando tirar máximo partido daqueles poucos momentos que alguma vez terá com o homem dos seus sonhos. E concentra-se, construindo a imagem mental da forma mais fria de o abandonar. Por minutos deixa-se levar, fraqueja ao pensar que poderia cometer este erro. Deixar-se levar, deixar-se apaixonar mais uma vez. "Seria o erro do erro", pensa. E lembra-se de como é tentador errar.
Ele está agora em êxtase, e ela levanta as sobrancelhas a si mesma, numa sensação de congratulação. "Foi por este momento que esperei. Não posso esperar mais, senão desisto e caio no erro do meu erro propositado, não pode ser". Ao passar por estes pensamentos, já quase completamente despida, alcança o seu pénis e verifica como está: duro, erguido, latejante. Ele já começa a expirar profundamente, em sinal de quem não aguenta muito mais.
"É agora."
Começa a beijar lentamente a barriga dele num trajecto descendente que acabará no seu pénis. Ele antecipa-se, e assume a posição típica de sexo oral; a posição egoísta que os homens assumem quando sabem que terão o seu tipo de prazer sexual preferido e, melhor ainda, o que lhes dá menos trabalho. Recosta-se então, atirando a cabeça para trás. E insinua-se, relaxando os músculos de todo o corpo, exceptuando aquele único músculo que não consegue relaxar. Ele pretende tirar o máximo prazer disto. Daqueles lábios que se adivinham quentes e húmidos.
Um gemido de antecipação pode ouvir-se. Ele agora geme e suspira pelo prazer que terá.
Ela finalmente chega ao fim do seu caminho de beijos suculentos. Toma um momento, uma pausa, e espera que ele abra os olhos para tentar perceber o que se aproxima.
"É agora."
Ela levanta-se, pega nas suas roupas e sai do quarto ainda despida, sem proferir uma única palavra.
Abandonou-o no pico da sua paixão sem uma única explicação, assim com ele o fez um ano atrás.
Mais do que por ele, ela sempre se sentiu atraída pelo prazer de trazer justiça poética à vida, pelo menos à sua vida.
- Shh... - sussurra ele, pousando-lhe um dedo descoordenado sobre os lábios. Ele também está claramente bêbado, e pergunta-se se isto será um erro. Ela sabe, efectivamente, que aquilo é um erro. Mas a personagem feminina desta fantasia sempre se sentiu atraída por coisas erradas; aliás, tudo o que ela sabe fazer é errar, é essa a história da sua vida. É uma história baseada na sucessão de erros que vieram a demonstrar-se interessantes e que a levaram até onde se encontra hoje: um quarto de hotel luxuoso, imundo às custas duma vida boémia, pago pela empresa que os levou ali como colegas de trabalho. É isso que lhe dá prazer, de entre todas as luxúrias quotidianas a que sucumbe. Viver uma vida de erros dos quais nunca se arrependerá, porque estará demasiado bêbada para se aperceber deles. Viver uma vida de belos infortúnios, que sabe que lhe acontecem porque os homens são demasiado fracos para lhe recusarem algo. Ela afinal não é tão estúpida quanto isso. Apaixonada pelo proibido, pela vida, pelo pecado, sim. Estúpida, não. E a maior prova disso é que ela construiu a vida dos seus sonhos fazendo-se passar por estúpida.
E aquela relação, aquele rufar de tambores que agora se anuncia perante ambos, durou um ano a alcançar. É persistente, nem todo o tempo do mundo a demove dos seus objectivos. Foi paciente o suficiente para esperar por aquele momento. E agora finge que não está a dar por ele, que ele passa por si despercebido, que não foi ela que o perseguiu, que é mais um infortúnio, mais um daqueles que lhe acontecem.
- Que cliché, fazeres isso do shh, estás a tentar ser sensual? - Finaliza ela, já sabendo que aquela frase o deixará intrigado. É assim que ela trabalha, até ao momento do sexo, às vezes mesmo após, ela nunca se entrega, deixa-os sempre com o gostinho amargo da dúvida de que eles poderão, afinal, não a ter. Pelo menos naquela noite.
E assim, ele tropeça na sua teia. Sempre adorou a brutalidade sincera do seu discurso, "existem tão poucas mulheres assim, tão pouco confiantes ao ponto de dizerem a verdade", pensa. Isso excita-o ainda que de uma forma não física, que, porém, se transfere até o seu físico. Os homens inteligentes são assim, funcionam com o cérebro, é o membro deles que tem de ser estimulado sexualmente. E ela sabe-o, sempre o operou porque percebeu desde nova que o corpo não era o seu melhor atributo, era a sua inteligência e como a poderia usar: fazer-se passar por confiante, escolher ser misteriosa, fingir-se de ingénua quando é calculista, fingir-se dominada quando domina, e praticar a sua sensualidade com base na sugestão, sem nunca, nunca perder a classe. A beleza física, aliás, é efémera, e ela é inteligente que baste para perceber que não poderá fazer uso exclusivo dela para sempre.
Ele explica:
- Tu és a namorada oficial do não-sei-das-quantas, a paixão de dois dos meus colegas de banda e a amante do meu ídolo. Como é que podes ter espaço para mais um homem na tua vida? - Ambos riem de forma perversa, e as suas testas e narizes encontram-se; sentem agora o hálito latejante um do outro.
- Cala-te agora tu. Eu não sou tua, nunca serei. Portanto não terei de arranjar "espaço" para ti na minha vida. E se queres saber, eu só sou uma promiscua sabes porquê? - Diz ela, entre mais gargalhadas, arrastando as palavras, contorcendo-se, e com pausas desnecessárias. - Sabes porquê? Sabes? Não sabes... Porque eu apaixono-me. Sim, apaixono-me. Será normal? Gostar de mais que uma pessoa ao mesmo tempo? Eu vou para o inferno...
Ele beija-a, surpreendendo-a. Ela adora ser surpreendida. Ele sabe que aquele monólogo não irá a lado nenhum, sinceramente nem quer ouvi-lo. Deixou-se invadir pelo selvagem sentimento que o assola, apesar de todas as consequências que amanhã terá de enfrentar. Ele deseja-a demasiado para resistir ao seu perfume, aos seus lábios, à sua sensualidade tão espontânea.
Ela empurra-o:
- Contempla-me.
Ele não sabe bem o que fazer.
- Contempla-me! - Grita ela, num sussurro grave e de tom manipulador, porque aquela relação é segredo, é mentira.
Ainda sem saber o que fazer, ele sussurra o seu nome com uma clara terminação reticente, o típico sussurro de desejo.
- Contempla-me, diz que me queres -, insiste.
Ele não responde, ele nunca foi submisso. Custa-lhe porque ele quer aquele momento mais do que tudo, desde que se apercebeu que ela não era a burra que ele julgava ser. Mas este homem está habituado a dominar as mulheres, não o contrário. Ele quase que não acredita que tem 32 anos e que está quase, quase a ceder aos desejos de uma miúda de 21. Ele é o tipo de homem que tem groupies a toda a hora disponíveis, só porque toca numa banda. Mas esta não. Esta escolheu-o a ele, não o contrário, e ela quer deixar isso bem claro como a vingança da última vez que ele a julgou mais uma dessas fãs.
- Adoro ser adorada... - Sussurra ela, insistindo, adivinhando-lhe os pensamentos.
Ela agora está quase a oferecer-se a ele numa bandeja prateada, a mesma mulher que manipula o seu ídolo. Ela está de soutien preto, de um negro que lhe assenta perfeitamente no tom de pele, e de jeans justos. Desaperta o primeiro botão das calças, mostrando-se tímida, e fazendo um olhar que lhe diz que ela desapertará mais se ele a contemplar. Ele toma um momento e olha para ela com olhos de ver, agora sim, ele começa a ceder. Ela continua confiante e tímida, vira-se, brinca com a alça do soutien, puxa o cabelo para um lado e pede: "beija-me aqui", desviando o olhar para o seu pescoço.
Esta é uma mulher que não tem prazer no sexo, pelo menos não no coito. E ela já fez sexo vezes suficientes e com os mais diversos homens para saber que nunca terá prazer no sexo. Mas não é frustrada por isso. Ela arranjou maneira de contornar o problema. Preenche as lacunas do prazer físico com prazer emocional. E o autor deste texto não se refere a amor ao mencionar prazer emocional. Tudo o que ela tem é a emoção, já que fisicamente é frígida, então desafia-se a controlar os homens mais controladores, a infantilizar os homens mais adultos, a tornar fracos e submissos os mais confiantes. A superá-los; é isso que lhe dá prazer. Ela quase que se vinga do prazer que nunca terá, humilhando-os psicologicamente. Quando começam, ela transmite sempre a mensagem subliminar que terá de ser à maneira dela, ou não será.
Enquanto ele a beija, louco de respiração ofegante, enquanto ele a bajula fazendo do seu corpo um santuário de prazer, exactamente como ela impôs, ela luta por afastar-se dos seus pensamentos. "Meu Deus, como amo este homem... Como sou louca por ele... Vai partir-me o coração sair deste quarto e dizer-lhe que não o quero...", e concentra-se, tentando tirar máximo partido daqueles poucos momentos que alguma vez terá com o homem dos seus sonhos. E concentra-se, construindo a imagem mental da forma mais fria de o abandonar. Por minutos deixa-se levar, fraqueja ao pensar que poderia cometer este erro. Deixar-se levar, deixar-se apaixonar mais uma vez. "Seria o erro do erro", pensa. E lembra-se de como é tentador errar.
Ele está agora em êxtase, e ela levanta as sobrancelhas a si mesma, numa sensação de congratulação. "Foi por este momento que esperei. Não posso esperar mais, senão desisto e caio no erro do meu erro propositado, não pode ser". Ao passar por estes pensamentos, já quase completamente despida, alcança o seu pénis e verifica como está: duro, erguido, latejante. Ele já começa a expirar profundamente, em sinal de quem não aguenta muito mais.
"É agora."
Começa a beijar lentamente a barriga dele num trajecto descendente que acabará no seu pénis. Ele antecipa-se, e assume a posição típica de sexo oral; a posição egoísta que os homens assumem quando sabem que terão o seu tipo de prazer sexual preferido e, melhor ainda, o que lhes dá menos trabalho. Recosta-se então, atirando a cabeça para trás. E insinua-se, relaxando os músculos de todo o corpo, exceptuando aquele único músculo que não consegue relaxar. Ele pretende tirar o máximo prazer disto. Daqueles lábios que se adivinham quentes e húmidos.
Um gemido de antecipação pode ouvir-se. Ele agora geme e suspira pelo prazer que terá.
Ela finalmente chega ao fim do seu caminho de beijos suculentos. Toma um momento, uma pausa, e espera que ele abra os olhos para tentar perceber o que se aproxima.
"É agora."
Ela levanta-se, pega nas suas roupas e sai do quarto ainda despida, sem proferir uma única palavra.
Abandonou-o no pico da sua paixão sem uma única explicação, assim com ele o fez um ano atrás.
Mais do que por ele, ela sempre se sentiu atraída pelo prazer de trazer justiça poética à vida, pelo menos à sua vida.
03 May 2008
(mais) um de muitos
Faço o quê? E agora que sou confrontada com tudo o que sempre quis faço o que?
Os sonhos não deviam ser-nos entregues assim de bandeja, deveriam dar mais luta para que seja possível saboreá-los.
Se assim for, que sonho é?
(pior do que as pessoas que só querem o que não podem ter, são as que não sabem o que querem.)
Os sonhos não deviam ser-nos entregues assim de bandeja, deveriam dar mais luta para que seja possível saboreá-los.
Se assim for, que sonho é?
(pior do que as pessoas que só querem o que não podem ter, são as que não sabem o que querem.)
16 April 2008
A minha alma gémea incompatível.
"Sê minha ou esquece-me."
Adorei a frase, o desafio, o ultimato. Apetecia-me ter respondido com um "sou tua", mas fui sensata porque lembrei-me dos tropeções que tenho dado na verdade.
Que tal a frase dele, para fatalismo? Que tal. A simplicidade e brutalidade dela. Amei-o, naquele momento. Um momento antes tinha-o odiado. Um momento depois odiei-o uma vez mais, porque aquela frase fez-me fritar o cérebro a pensar nela, e as que se seguiram ainda mais. Juro que dormi uma sesta de quatro horas, tal não era a exaustão psíquica. E depois, quando acordei, o silêncio, a resposta mais (des)interessante de todas. Uma merda.
Ele não responde às minhas perguntas. Aprendeu politiquices na televisão.
Ele adianta-se às minhas reacções, protegendo-se. Aprendeu com a cobardia da idade.
Eu não estou ao alcance dele? Espero que o tenha dito por ironia.
Não vai resultar e tem medo e quer ser meu amigo depois da sms que iniciou este debate? Suponho que nunca me senti atraída pela coerência.
Não sei porque ele o disse, não sei porque me perguntei tal coisa.
Ele é louco. Enlouquece-me por transferência, tal não é a agressividade da sua estupidez.
Uma relação comigo própria nunca resultaria, talvez ele afinal tenha razão. Hoje mesmo, não resulta, é uma relação em que fujo de mim mesma constantemente, nos meus debates internos e fundamentalistas, para não enlouquecer num auto-conflito de pura bipolaridade. Já que não posso sair de mim, abstrair-me de mim, fujo de mim. Corro em forma virtual na direcção oposta.
Ele é demasiado eu, a minha alma gémea incompatível.
Ele é a personificação da emoção, ele é tudo.
Um bocadinho demasiado tudo.
Demasiado querido,
emotivo,
cómico,
exuberante,
sincero,
giro,
psicótico,
invulgar,
distinto,
feliz,
infeliz,
bipolar,
talentoso,
irracional,
dramático.
Vive as suas emoções exactamente como eu, hiperbolizando-as à exaustão, com a consequência de se tornarem efémeras, fortes e fracas num único momento, fugidias, frágeis, belas e feias, desproporcionais.
Não posso.
Isso sou eu.
As nossas discussões são paixão.
As nossas conversas são paixão.
Todos os nossos diálogos, seja de que natureza forem, são paixão.
Somos paixão desde o 6º minuto de conversa que tivemos. Só fomos neutros um com o outro durante 6 minutos desde que nos conhecemos.
Demasiada paixão.
Há que haver um equilíbrio, chego a crer que às vezes a loucura dele me ultrapassa.
Já apaguei o número dele, não posso voltar a sofrer, não posso deixar que voltem a partir-me o coração, para isso seria necessário que estivesse, pelo menos, inteiro.
Demasiada paixão é perigoso? A pergunta é tendenciosa.
Adorei a frase, o desafio, o ultimato. Apetecia-me ter respondido com um "sou tua", mas fui sensata porque lembrei-me dos tropeções que tenho dado na verdade.
Que tal a frase dele, para fatalismo? Que tal. A simplicidade e brutalidade dela. Amei-o, naquele momento. Um momento antes tinha-o odiado. Um momento depois odiei-o uma vez mais, porque aquela frase fez-me fritar o cérebro a pensar nela, e as que se seguiram ainda mais. Juro que dormi uma sesta de quatro horas, tal não era a exaustão psíquica. E depois, quando acordei, o silêncio, a resposta mais (des)interessante de todas. Uma merda.
Ele não responde às minhas perguntas. Aprendeu politiquices na televisão.
Ele adianta-se às minhas reacções, protegendo-se. Aprendeu com a cobardia da idade.
Eu não estou ao alcance dele? Espero que o tenha dito por ironia.
Não vai resultar e tem medo e quer ser meu amigo depois da sms que iniciou este debate? Suponho que nunca me senti atraída pela coerência.
Não sei porque ele o disse, não sei porque me perguntei tal coisa.
Ele é louco. Enlouquece-me por transferência, tal não é a agressividade da sua estupidez.
Uma relação comigo própria nunca resultaria, talvez ele afinal tenha razão. Hoje mesmo, não resulta, é uma relação em que fujo de mim mesma constantemente, nos meus debates internos e fundamentalistas, para não enlouquecer num auto-conflito de pura bipolaridade. Já que não posso sair de mim, abstrair-me de mim, fujo de mim. Corro em forma virtual na direcção oposta.
Ele é demasiado eu, a minha alma gémea incompatível.
Ele é a personificação da emoção, ele é tudo.
Um bocadinho demasiado tudo.
Demasiado querido,
emotivo,
cómico,
exuberante,
sincero,
giro,
psicótico,
invulgar,
distinto,
feliz,
infeliz,
bipolar,
talentoso,
irracional,
dramático.
Vive as suas emoções exactamente como eu, hiperbolizando-as à exaustão, com a consequência de se tornarem efémeras, fortes e fracas num único momento, fugidias, frágeis, belas e feias, desproporcionais.
Não posso.
Isso sou eu.
As nossas discussões são paixão.
As nossas conversas são paixão.
Todos os nossos diálogos, seja de que natureza forem, são paixão.
Somos paixão desde o 6º minuto de conversa que tivemos. Só fomos neutros um com o outro durante 6 minutos desde que nos conhecemos.
Demasiada paixão.
Há que haver um equilíbrio, chego a crer que às vezes a loucura dele me ultrapassa.
Já apaguei o número dele, não posso voltar a sofrer, não posso deixar que voltem a partir-me o coração, para isso seria necessário que estivesse, pelo menos, inteiro.
Demasiada paixão é perigoso? A pergunta é tendenciosa.
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